Parentes de desaparecidos políticos na ditadura recebem novos atestados de óbito que responsabilizam Estado pelas mortes
28/08/2025
(Foto: Reprodução) Parentes de mortos e desaparecidos durante a ditadura recebem novos atestados de óbito
Uma cerimônia, em Belo Horizonte, reuniu parentes de vítimas de um dos períodos mais sombrios da história brasileira.
Os troncos dispostos sobre o gramado do campus da Universidade Federal de Minas Gerais formam um monumento em homenagem a estudantes mortos pela ditadura militar. Entre os nomes - agora reconhecidos oficialmente -, está o de Gildo Macedo Lacerda, o líder estudantil casado com a jornalista aposentada, Mariluce Moura.
Só hoje, ela recebeu o atestado de óbito corrigido, que substitui a causa natural registrada anteriormente pela verdadeira: morte violenta provocada pelo Estado, durante o regime militar. A mudança na documentação foi uma determinação do Conselho Nacional de Justiça.
"Representa algo como uma espécie de quase pedido de desculpas do Estado por um longo silêncio sobre um crime de Estado", afirma jornalista Mariluce Moura.
Gildo Macedo Lacerda foi preso e morto em 1973. A Tessa, filha de Mariluce e Gildo, não conheceu o pai.
Gildo Macedo Lacerda foi preso e morto em 1973. A Tessa, filha de Mariluce e Gildo, não conheceu o pai.
Jornal Nacional
"Eu me sinto finalmente acolhida numa dor com a qual eu nasci. Essa situação de um luto que não é possível ser feito porque não temos um corpo para velar", afirma Tessa Moura Lacerda.
Parentes de vinte e duas vítimas da ditadura receberam hoje as primeiras certidões de óbito retificadas, que apontam o Estado brasileiro como responsável pelas mortes. A solenidade aconteceu na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
A Iara, filha do Raimundo Gonçalves Figueiredo, preso e morto em 1971, também recebeu o documento.
"É uma reparação histórica... O atestado que eu consegui obter aos 27 anos, quando eu tava com 27 anos, era um atestado apenas de desaparecido político, o que é bem estranho, né?", diz a advogada Iara Lobos de Figueiredo.
O golpe de Estado instaurou a ditadura militar no Brasil em 1964 e durou até 1985. 434 famílias de mortos e desaparecidos durante o período vão receber os documentos.
"A gente tá dando um ato de dignidade para famílias que passaram anos, décadas, sem saber o que aconteceu com os seus familiares", comenta Janine Mello, secretária-executiva do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. "Agora, o Estado reconhece e diz: 'a gente entrega um documento efetivamente dizendo o que aconteceu'".